O que é que Macau tem? Muito futuro também tem.

O que é que Macau tem?

A China possui algumas das mais extraordinárias atrações turísticas, tais como a Grande Muralha, a Cidade Proibida de Pequim, o Centro dos Pandas Gigantes em Chengdu, o Exército de Soldados de Terracota de  Chien, etc.  Como  resultado, o país atraiu em 2016 nada menos do que 138 milhões de visitantes estrangeiros. O dado equivalente para o Brasil em 2016 foi de 6,6 milhões de visitantes estrangeiros. Talvez seja surpresa para muitos leitores o fato de que 122 milhões de chineses viajaram no mesmo ano ao exterior.

Mas em matéria de estatísticas de turismo, uma pequena localidade no Sul da China surpreende. Trata-se da Região Administrativa Especial de Macau, com apenas 28,2 km quadrados (pouco mais do que o arquipélago de Fernando de Noronha) e 650 mil habitantes. A cidade está ligada por terra à contígua  Zhuhai na China e por confortável viagem de uma hora de “ferry/jato” a Hong Kong. Esta antiga colônia portuguesa recebeu, em 2016, o asombroso número de trinta milhões de turistas!

Cumpre, pois, perguntar: O que é que a minúscula Macau tem para atrair, por ano, cinco vezes mais turistas do que o Brasil ?

Em grande parte, a resposta encontra-se na paixão chinesa por jogos de azar e, desde 1847, os cassinos foram autorizados pelo Governo de Portugal a operar em Macau. Atualmente, 49  casinos funcionam  na cidade e os maiores estão acoplados a hotéis de luxo e centros comerciais. A título ilustrativo, um cassino como o “The Venetian” tem hotel com 3.000 quartos e 27 restaurantes, além de um “shopping mall” com canais e gôndolas venezianas – tudo aberto 24 horas por dia.Nas áreas de comercio, um teto falso dá a impressão de que são sempre 18:00 horas… o tempo deve ficar parado na magia dos cassinos.

O Cassino Galaxy, além das atrações do jogo, conta com cinco hoteis e 18 restaurantes de luxo

O conjunto de cassinos macaenses, em 2013, gerou renda no total de US$ 45,27 bilhões de dólares. Desde então, a campanha anti-corrupção pelo Governo de Pequim reduziu tais rendas para US$ 28   bilhões em 2016….ainda assim quatro vezes o total auferido pelos cassinos de Las Vegas! Além disso, desde agosto de 2016 voltaram a crescer os rendimentos dos cassinos de Macau, cidade que é a capital mundial dos jogos de azar! Cabe mencionar que todos os anos o Governo de Macau repassa  para os cidadãos parte dos impostos auferidos com a taxação dos cassinos. Tal sistema faz com que a renda anual per capita  dos macaenses, em 2016,  seja estimada em US$ 96.100,00 dólares (a sexta mais alta do mundo). A renda percapita anual dos brasileiros em 2016 foi estimada em  US$ 14.800,00 dólares.

Um pormenor histórico curioso é o fato de que, no Brasil, até 30 de abril de 1946, operaram legalmente cerca de  70 cassinos, responsáveis por mais de quarenta mil empregos. Nesta data, o Decreto-Lei Nº 9.215, do Presidente Eurico Gaspar Dutra,
Proíbe a prática ou exploração de jogos de azar em todo o território nacional…  Passados setenta anos da proibição dos cassinos, merecem ser lidas as justificativas listadas no Decreto-Lei para tal iniciativa.

Mas existem outras razões para o turista visitar Macau, além dos cassinos. Tão forte ou mais do que a paixão pelo jogo é o gosto chinês pela boa mesa.Nada menos do que 19 restaurantes receberam em Macau, no ano de 2017, estrelas do Guia Michelin, além de doze outros com a classificação “bib gourmand”. Entre os premiados, dois restaurantes (um de cozinha francesa e outro de culinária cantonesa) receberam a rara cotação máxima de três estrelas do Michelin. Curiosamente, nenhum dos “estrelados” é de cozinha portuguesa. Em suma, come-se bem em Macau e o “guide rouge” ainda traz doze locais de excelência na categoria “street food”, ou seja, quiosques excepcionais de rua!

Em suma, os melhores cassinos contam com hotéis de luxo, com “shoppings”  e com os melhores restaurantes na listagem do “Guide Rouge Michelin”. Pode ficar no ar a falsa impressão de que apenas os grandes centros de jogo, de  boa mesa e de compras justificariam uma visita a Macau.

Para os viajantes brasileiros (ou de outros países de língua portuguesa), a pequena Macau é uma aula de História.      A cidade atravessou períodos de estagnação econômica e (ao contrário de Hong Kong) a modernização não destruiu tanto da presença (portuguesa e  chinesa) do passado. Estamos falando de templos chineses, de fortalezas e igrejas portuguesas, de traçado antigo de ruas que, desde julho de 2005, são parte do, Patrimônio Mundial da Humanidade conforme decisão da UNESCO. Passear pelo centro histórico é como perambular pelo passado e que ainda está vivo com seus cafés, restaurantes e lojas.  Deve ser  lembrado que Macau foi parte do império governado por D. João VI a partir do Rio de Janeiro. Em duas ocasiões, o governador da colônia foi  o brasileiro Lucas José de Alvarenga, nascido em Sabará em 1768, mais recordado no Brasil como romancista.

Centro da Cidade de Macau

O monumento mais espetacular da cidade são as Ruínas de São Paulo, ou seja, a fachada de Igreja construída para impressionar pelo seu tamanho os mandarins de Cantão. A  igreja sofreu incêndio, em 1835,  deixando de pé somente a impressionante fachada. Em Macau, como no Brasil, vemos a forte presença dos jesuítas.

A partir de Macau, os jesuítas  planejaram a conquista espiritual da Ásia

As placas com os nomes de ruas estão escritas em chinês e em português. Cabe visitar a Livraria Portuguesa no número 16 da rua de São Domingo e, quem sabe, comprar o livro “Saboroso – Cozinha Portuguesa e macaense em Macau”, escrito em português, chinês e Inglês, com  informações sobre os melhores vinte restaurantes lusos da cidade. Aos domingos, às 11:30, a Catedral reunirá a comunidade  que fala português para a missa. Muitas calçadas estão com desenhos de ondas em pedra portuguesa, lembrando Copacabana. Alguns armazéns e mercearias especializam-se em produtos portugueses e brasileiros e é uma delícia poder reconhecer  o que está sendo exposto nas gôndolas. Mas acima de tudo, a boa cozinha dos restaurantes  portugueses traduz bem o que em inglês é conhecido como “comfort food”. A cidade conta ainda com uma ativa associação de brasileiros – a Casa do Brasil em Macau. Em breves palavras, sobretudo para  brasileiros “expatriados”, que vivem no Extremo Oriente, há muito em Macau para atiçar e aplacar saudades.

Mas Macau não é apenas o passado que pode interessar o viajante. A cidade conta com dez instituições de ensino superior e cabe em especial,  mencionar a Universidade de Macau, entidade cosmopolita  e que faz parte da AULP – Associação das Universidades de Língua Porguguesa. O campus – uma verdadeira cidade  com oitenta edifícios– merece uma visita e cumpre destacar que esta escola está listada, no que tange excelência,  na posição 67 (da “Times Higher Eduction World University Rankings”) entre as universidades com menos de 50 anos de existência.

Vista aéra da Universidade de Macau, conjunto de oitenta edifícios para abrigar dez mil alunos (Foto da UM). Ao centro, com fachada arredondada está a biblioteca cenral da Univrsidade. O hall de entrada com o grande salão de leitura “vale a visita”!

Também olhando para o futuro, a região que abarca Macau, Zhuhai, Shenzen (a área de maior crescimento no mundo), Hong Kong e Cantão transforma-se  em área de livre comércio  e verdadeira locomotiva da economia chinesa. Esta faixa da costa meridional da China, aos poucos, vai confirmando a sua posição de liderança econômica e financeira global.

O que é que Macau tem?  Muito futuro também tem.

 

 

José Antônio de Castello Branco de Macedo Soares é Diplomata de carreira, tendo chefiado o Consulado-Geral do Brasil em Hong Kong e Macau entre fevereiro de 2013 e novembro de 2016.

Deixe uma resposta

Comment
Name*
Mail*
Website*