Périgord, uma viagem de todo os sentidos

Difícil descrever para outros a razão de uma paixão. No meu caso, um local que mora no meu coração. Mas se razão não há, vamos de emoção.

A região sudoeste da França ainda não é muito frequentada por brasileiros, afinal, sai um pouco dos roteiros mais conhecidos e circuitos mais famosos.

Mas uma coisa é certa, quem conhece, não se arrepende e quer voltar.

 

É preciso dizer, logo de início, que não é possível tratar de todo sudoeste em apenas um post, então vamos começar pelo Périgord Noir, ou La Dordogne, e que estamos há 500km de Paris!

A aproximadamente 137 km de Bordeaux, a maior cidade do Périgord, Périgueux, já ensaia as características do patrimônio cultural, da comida boa e, claro, dos vinhos daquele pedaço do país.

O Périgord mantém fortes as tradições locais, especialmente na gastronomia. E o carro chefe é o foie gras, seguido do queijo de cabra, cogumelos, trufas e nozes.

Para quem não é amante da versão pura da iguaria do ganso, o terrine servido como entrada em todos os restaurantes, de grandes maisons a brasseries familiares, é elaborada à base do foie gras, porém mais suave, com alguma mistura de bacon, etc. Uma ótima pedida.

Na sequência, o magret de canard (peito de pato) ou o confit de canard (coxa de pato), típicos do Périgord, são deliciosos. Vale lembrar que na França, de regra, as refeições vem acompanhadas de salada, além do pão e da água, “ofertas da casa”.

O queijo de cabra está sempre presente nos menus da região, em especial nas saladas e no clássico chèvre chaud (cabra quente), em rodelas sobre o pão, tudo quentinho, com azeite, manteiga e por vezes alecrim… hum… memória olfativa é um problema…

As trufas, cogumelos e nozes são sazonais, dependem da estação. Então, por ora, vamos deixar o paladar para explorarmos o olhar…

O cenário da Dordogne é medieval, os castelos são brutos, verdadeiras fortificações que no passado serviam à proteção e vigilância… daquele tempo em que ainda não se conhecia o vidro, a seda, mas se dominavam as lanças, bestas, catapultas, pontes levadiças, torres e armaduras… sim, histórias de CAVALEIROS… PRINCESAS… DOMÍNIOS!

Considerando que a região é próxima de Bordeaux e logo, do mar, os ingleses, hábeis marinheiros desde os primórdios, travaram intensas lutas pela conquista do território, especialmente durante a Guerra dos Cem anos, forte e longamente travada entre França e Inglaterra.

E a cada conquista, os vilarejos, eram formados para comando e povoamento e garantia do domínio do território. São conhecidos como cidades-bastides.

As construções dos fortes e das casas foram e ainda permanecem sendo feitas a partir de pedras da região, meio douradas, e há muitas, muitas flores, especialmente roseiras. Daí um lindo paradoxo – pedras e flores!

Sarlat-la-Canéda é uma das cidades características da região e serve de ótima base para visitar o Périgord. Pequena, mas com ótima estrutura, está próxima dos villages, cidades-bastides, mais charmosos da Dordogne. Hotéis, pousadas, B&Bs, restaurantes, mercados, extenso comércio de produtos regionais e souvenirs, claro. Fizemos uma ótima refeição no Les Chevaliers de la Tour.

Alguns vilarejos estão situados às margens do rio ou no alto da colina, quando não entre um e outro, a exemplo de La Roque-Gageac e Beynac-et-Cazenac.

Em francês a palavra rio é feminina, la rive, e Dordogne é o nome de um dos rios que atravessa a região e segue curso até Bordeaux. Por isso, la Dordogne.

Entre a margen do (rio) Dordogne e o alto da colina de onde desponta o inabalável château está situada a inesquecível La Roque-Gageac. A melhor vista da bastide e do forte, importante dizer, é a partir do rio, no delicioso passeio de Gabarre, pequena embarcação que em outros tempos servia ao transporte do vinho, hoje se presta a agradar os olhos dos turistas. Caiaques são facilmente alugados no local.

Beynac-et-Cazenac, outro vilarejo protegido pelo mesmo rio, também ostenta o castelo/forte no alto das pedras e já serviu de cenário para duas filmagens de época, Jeanne d’Arc, de Luc Besson, com Milla Jovovich, e Les visiteurs 2, de Jean-Marie Poiré – ótima comédia, com Jean Reno e Christian Clavier. O passeio de Gabarre também é oferecido.

A seguir, a visita à Domme, outro village muito próximo de Sarlat, é obrigatória. A cidade medieval, que não fica às margens do rio, mas em um ponto muito acima do transcurso da água, ainda mantém alguns portais que comprovam a antiga fortificação da cidade. Além disso, as ruelas e casas antigas são encantadoras, sem falar na vista do Vale da Dordogne. Aproveitem para apreciar um chope no Bar-Brasserie “Le Belvedere”.

Um momento a parte deve ser reservado para a visita à Castelnaud-La-Chapelle. Além do vilarejo, o castelo, monumento históricos, abriga nos dias atuais um museu da guerra na idade média. Tudo é original. Armaduras, lanças, bestas e diversas outras armas e objetos da época estão expostos ao público, sem contar a própria visita ao forte. Particularmente, foi mágico assistir à catapulta em funcionamento.

Rocamadour não pode faltar. Cidade religiosa construída na vertical, caminho de Santiago de Compostela, acolhe turistas e peregrinos. É magnífica de lugar que se olha. Há um restaurante, no alto da cidade, com magnífica vista e ótimo custo benefício, o “La Terrasse Sainte Marie”.

E a partir de Rocamadour, que tal uma esticada de poucos km até a Grouffe-de-Padirac?

A Dordogne registra a presença do homem desde os primórdios. As inumeráveis grutas, sítios arqueológicos e arte rupestre podem ser conhecidos a pé, de carro ou de barco. A exemplo, Lascaux IV, La Madeleine e diversas outras opções.

A gruta de Padirac, no Lot, está a 75m abaixo da superfície e para visitá-la, além de escadas ou elevadores próprios, a excursão através dela é feita em um pequeno barco. Incrível. A temperatura durante todo o ano é de 13º, logo, se a visita for verão, convém levar um casaco. Fotos não são permitidas, o que é adequado porque a iluminação da gruta deixa o ambiente deslumbrante.  Segue o link para um passeio virtual, http://www.gouffre-de-padirac.com.

Outros vilarejos, com menos de 5.000 habitantes, não podem ser esquecidos. Ainda que pequenos, em todos há opções de restaurantes e hotéis. Como estão realmente próximos uns dos outros, aconselhamos utilizar as estradas cenográficas, sem pedágios e que são geralmente calmas e oferecem um prazer à parte, com lindas paisagens, áreas de descanso e piqueniques, claro.  No caminho, uma parada no restaurante “Les Remparts”, no Château de Castelnau-de-Bretenoux é uma boa dica, se o caso de haver interesse em almoçar no terraço de um castelo medieval.

Dentre essas pequenas cidades merecem destaque Autoire, Loubressac e Collonges-la-Rouge, toda construída em tijolos avermelhados e que ainda faz parte do caminho de peregrinação para Santiago de Compostela.

E não podemos nos esquecer de Saint-Cirq-Lapopie, nome irreverente para um local tão marcante, com restaurantes de mesas nas calçadas e muito charme. Além disso, preciso dizer que se situa no vale do Lot, outro importante rio da região. Tudo simples, mas muito agradável.

Aos ouvidos, penso que a região combina com Enya ou Nouvelle Vague, conhecem?

Para beber, um Cahors, tinto bem encorpado, ou um Armagnac, famoso licor, ambos produzidos na região.

Por fim, devo dizer que descobrimos a região por acaso, ao assistirmos a um filme que nunca encontramos para comprar ou alugar, chamado I love Périgord. Comédia romântica ensaiada por uma jovem francesa e um jovem inglês, o enredo bem descreve as tradições locais com acento nas diferenças ainda percebidas entre a França e a Inglaterra, mesmo após transcorridos alguns séculos e várias batalhas… no passado.

E para uma viagem de todos os sentidos, o tato não pode faltar. A região é indicada para todas as idades, viagens em família, romance, amigos. E, nestas circunstâncias felizes da vida, indispensáveis os abraços e beijos distribuídos àqueles que a gente gosta! Espero que tenham gostado!

 

No sudoeste da França ainda encontramos diversos outros vilarejos, lindos, charmosos, encantadores! Vamos continuar em um próximo post?

 

 

Texto por Marcela Tavernard (Colaboradora): Uma  mineira , que mora em Brasília e ama a França, a língua Francesa, a cultura, a gastronomia,  suas paisagens e em especial os seus Castelos. Em suas viagens, tem o seu marido como o  melhor companheiro.

 

 

 

 

Deixe uma resposta

Comment
Name*
Mail*
Website*